O poder de um garfo:
Para quem tem família, trabalha e tem filhos pequenos, sabe que, depois de um dia de trabalho vem sempre o “dia de casa”, como eu o chamo.
Cá em casa as tarefas são partilhadas seguindo o nosso Family Board.
Como tal, ontem foi dia de Salmão alimado para jantar. Enquanto terminava o plano para esta semana, o meu marido foi tratando do jantar e de pôr a mesa.
E tudo esteve tranquilo até ao momento em fui colocar a salada na mesa e reparei no garfo que estava do lado esquerdo do meu prato.
Sabem aqueles “Relances” ou “flashes” que temos repentinos, que tanto nos tiram o chão como nos enchem a alma de recordações?
Foi o que aconteceu comigo!
Agarrada àquele garfo estava uma história com 30 anos!!!
Como?
Era Novembro e eu acabara de ser colocada na Universidade de Évora, “apenas” a 400km de casa. Numa altura em que as comunicações não eram como atualmente e em que a abundância financeira era um mito!
Nesse dia, uma mãe desesperada e feliz, fez a “trouxa” para que a sua filha mais nova partisse.
Dentro da sua humildade, com o coração apertado e de lágrimas escondidas, colocou tudo de melhor para que partisse o mais protegida possível! Para que nada essencial lhe faltasse! – Roupas, roupas de cama, o cobertor preferido do leão; escova e pasta de dentes, shampoo, gel duche, tachos, dois pratos, dois copos, dois talheres…
Dois talheres do seu melhor serviço, pois não podiam ser dos que tinha a uso, afinal a sua menina ía ser engenheira!
Foram também esses talheres, esse cobertor, esse prato que mantiveram viva a presença de casa, do mimo dos pais a 400km de distância. Cada objeto banal foi começando a aumentar de valor à medida que a saudade apertava e a distância parecia aumentar!
E, foi um desses garfos que foi colocado para mim, para a minha refeição de ontem.
Como se fosse um beijo de mãe dado antes de dormir!
Ainda que possam não entender!
Depois de ter perdido a minha mãe, o toque; o pegar nesse garfo simboliza o toque do amor. Todo o amor que ela depositou por mim numa peça banal, mas escolhida cheia de sentimento.
Hoje esse garfo vale 30 anos de saudades, de memórias, de uma mãe que já partiu.
Para muito mais do que 400km de distância!
Para uma distância de nunca mais!
Depois de fazer esta viagem de 30 anos, as lágrimas anunciaram a saudade de tantos momentos; de uma mãe que sempre foi só amor.
O poder de um garfo banal…mas cheio de tanta história e tanto amor.
O Natal aproxima-se e o meu desejo é que consigam criar valor em cada pequeno presente que recebam, pois esse é o valor que importa.
@Ana Figueiredo